
O lado fatal
Quando meu amado morreu, não pude acreditar:
andei pelo quarto sozinha repetindo baixo:
"Não acredito, não acredito."
Beijei sua boca ainda morna,
acarinhei seu cabelo.
Muita gente veio e se foi.
Olharam, me abraçaram, choraram,
todos com ar de uma incrédula orfandade.
Aquele de quem hoje falam e escrevem
(ou aos poucos vão-se esquecendo)
é muito menos do que este,
deitado em meu coração,
meu amante e meu menino ainda.
Ficamos sós: a Morte o meu amado e eu.
Enterrei o rosto na curva do seu ombro como sempre fazia,
disse as palavras de amor que costumávamos trocar.
O silêncio dele era absoluto:
seu coração emudecido e o meu,
varados por essa dourada foice.
Por onde vou deixo o rastro de um sangue
denso e triste que não estancará jamais.
Insensato eu estar aqui, e viva.
O rosto dele me contempla
vincado e triste no retrato sobre minha mesa;
em outros, sorri para mim, apaixonado e feliz.
Insensato, isso de sobreviver:
mas cá estou, na aparência inteira.
Vou à janela esperando que ele apareça
Vou à janela esperando que ele apareça
e me acene com aquele seu gesto largo e generoso,
que ao acordar esteja ao meu lado
e que ao telefone seja sempre a sua voz.
Sei e não sei que tudo isso é impossível,
Sei e não sei que tudo isso é impossível,
que a morte é um abismo sem pontes
(ao menos por algum tempo).
Sobrevivo, mas pela insensatez.
Sobrevivo, mas pela insensatez.
Pensei que estávamos apenas no começo:
a casa mal-e-mal nos alicerces.
Mas provavelmente estava concluída e eu não sabia.
Tínhamos erguido em nossos poucos anos as paredes necessárias;
o telhado se inclinava ao jeito certo,
e havia vidraças nas janelas.
(Éramos felizes ali dentro mesmo com as tempestades de fora.)
Tudo se construiu num lapso tão curto:
até a porta de entrada, por onde ele saiu casualmente
como quem vai comprar jornal.
A porta está apenas encostada
embora pareça alta, dura, intransponível:
do lado de lá, o meu amor vê as maravilhas
que tanto nos intrigavam nesta vida.
Tanto escrevi sobre a morte em livros e poemas nesses meses:
sempre achei que a entendia um pouco.
Mas agora que ela me dilacerou a vida,
Mas agora que ela me dilacerou a vida,
me rasgou o peito,me levou o amado,
sinto que mal começo a compreender sua mensagem:
tirando-o de mim, a morte o devolve para que seja mais meu.
Dentro de mim um quebra-cabeças,
Dentro de mim um quebra-cabeças,
e nele o meu amado.
Ninguém o tirará daqui.
O meu amado morreu:
viver sem ele, como dói.
Não tivemos filhos juntos,
nosso passado foi tão breve que era semprepresente.
Um dia disse:"Somos um só desde sempre.
"Ainda não acreditei em sua morte,
e talvez isso me salve por enquanto.
Levantar-me da cama cada dia é um ato heróico,
atender o telefone, tomar café.
Mas faço tudo isso:
falo, ando, recebo visitas.
Compro roupas e sandálias sem ele,imaginando:
será que ele vai gostar?
De algum secreto lugar me vem a força para levantar-me da cama,
De algum secreto lugar me vem a força para levantar-me da cama,
e até sorrir quando alguém me diz:
"Você hoje está com a cara ótima",
quando penso se não doeria menos jogar-me de um décimo-primeiro andar.
Amado meu, agora morto,
postado do lado de lá da fronteira que nos seduzia,
mudo e quedo como se não existisses:
eu sei que existes,intensamente, ardentemente existes,
feito e desfeito no fogo de um amor maior que o nosso mas que nos abrange.
Amado meu, morto agora e para sempre vivo,
Amado meu, morto agora e para sempre vivo,
hás de ter ainda o intenso olhar que me entendia,
as curvas amorosas da boca que chamou meu nome,
as belas, inquietas mãos que ardiam nas minhas.
Ajuda-me agora, silencioso que estás,
a suportar a sobrevida e a decifrar esse alto, intransponível muro que me cerca.
O meu amor enveredou por sua morte
O meu amor enveredou por sua morte
como quem vai a um encontro de amor:impaciente.
Deixou-me este coração golpeado,esta derrota.
Mas também ficou a claridade desses anos
e a sensação de que ele finalmentevive o encontro de amor que toda a devoção de minha vida não lhe poderia dar.
(Um dia, celebraremos juntos.)
Se me tivessem amputado braços e perna
Se me tivessem amputado braços e perna
se furado o coração com frias facas
e cegado meus olhos com gancho
se esfolado a minha pele como a de um podre bicho-
nada doeria mais que te saber morto, amado meu,
depositado nesse irremediável poço de silêncio de onde não respondes.
(A não ser em sonho, quando me olhas e tuas mãos tocam as minhas espalmadas,abertas, feridas, vazias.)
O meu amado morreu:preciso viver sua morte até o fim.
Morreu sem que se instalasse entre nós cansaço e banalidade.
Talvez tenha morrido na medida certa para nada se desgastar.
Dele me vem a dor, mas também a ternura,
a claridade que me permite ver em todos os rostos o seu rosto
em todos os vultos o seu vulto
e ouvir em todos os silêncioso seu inesperado riso de criança .
Estranha a vida:fico tangendo meus dias
como um rebanho de ovelhas desordenadas
triste e fria cidade onde ele gostava de estarolhando o pôr-do-sol e vendo amigos.
"Morrer é tomar um porre de não-desejo"
dizia o meu amado, que era um homem desejoso:
desejava a vida, desejava a morte,
desejava a justiça, desejava a eternidade e a paz.
Estranha a vida:
Estranha a vida:
quando releio uma frase sua,
"viver é modular a morte", em sangue e dor preparo a minha ida.
Estranho também esse amor,
Estranho também esse amor,
com hora marcada para a mutilação da morte,
o minuto acertado, e o fim consultando o relógio para nos golpear.
Estranho esse amor de agora,
Estranho esse amor de agora,
com meu amado atrás de um espelho baço
onde às vezes penso divisar seu vulto como num aquário.
Enrolado em silêncio,
mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.
Não falem alto comigo:
andem sempre na ponta dos pés.
Principalmente, não me toquem.
Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto
,se nem sempre entendo as perguntas com a rapidez de antigamente,
se pareço fatigada e sem graça como nunca fui.
Façam silêncio ao meu redor.
Façam silêncio ao meu redor.
Não me interessa nada o cotidiano nem o místico.
Não quero discutir o preço do mercado
nem os grandes mistérios da eternidade.
Levo meu amado no peito
Levo meu amado no peito
como quem carrega nos braços para sempre uma criança morta.
Amado meu, que tanto ensinas
tede mim a mim mesma,
e do mundo a quem o conhecia pouco:
quando se desfizer escura a noite desta perda,
quando se desfizer escura a noite desta perda,
quero enxergar pelos teus olhos,
amar através do teu amoras coisas que me restaram.
Amado meu, vivo em mim para sempre,
Amado meu, vivo em mim para sempre,
apesar da ruga a mais e do olhar mais triste,
devo-te isto:voltar a amar a vidac omo agora amas,
inteiramente,a tua morte.

